sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

Ser sobredotado

Estava eu no meu canto do sofá a olhar para a televisão, quando começa um programa da treta em que iam de falar de pessoas sobredotadas.
Bom, como não tinha mesmo nada mais interessante para fazer, resolvi ficar a ouvir aquela conversa da treta.
E no fundo a conversa não foi muito além da treta mesmo.
Meninos crescidos, com níveis de QI superior ao normal, mas que tentavam ser felizes à sua maneira e com a protecção incondicional dos pais.
Mas essa gente sabe lá o que é sofrer enquanto sobredotado.
Ser rejeitada pelos pais porque se é diferente, ver os meus pais evitarem falar comigo só porque não sabiam responder às minhas perguntas.
Ir para a escola primária e não ter amigos porque todos pareciam tão fúteis, tão “crianças”; e sentir que eles me viam de um modo diferente, viam-me como a menina que tinha a mania que sabia tudo.
Não imaginam o desespero que era tentar arranjar coisas para fazer e para descobrir durante o dia inteiro (sim, porque na altura não existia Internet em casa).
Ir para a escola e passar horas intermináveis a olhar para a janela enquanto os meus colegas aprendiam a ler e a escrever. Nunca ninguém se deu ao trabalho de me explicar que aquela era a idade correcta para aprender a ler e a escrever. Era mais fácil mandarem-me estar quieta e calada do que explicar-me porque é que eu tinha de estar ali.
Mas pronto, ao fim de quatro longos anos, lá mudei para uma escola onde pelo menos já havia mais coisas interessantes, e já começava a perceber que era eu que era diferente e não todos os outros à minha volta.
É claro que a indiferença familiar continuava, o olhar de lado por parte dos colegas também (bom, sempre se aproximavam quando precisavam da minha ajuda para estudar ou fazer trabalhos), mas pelo menos sentia mais interesse e não me levantava de manhã tão triste.
Os anos passaram, o insucesso escolar não existiu mas fui obrigada a deixar de estudar por força das circunstâncias, e quando cheguei ao mercado de trabalho os fantasmas voltaram.
Como é que é possível alguém ficar vinte anos a fazer o mesmo trabalho? Como? Será que não se cansam? Será que não têm mais objectivos? Ou será que sou mesmo eu que continuo um bocado diferente?
Em seis anos de trabalho fiz o que muitos não fazem numa vida inteira (não me estou a vangloriar, nada disso). Fiz formações atrás de formações, desenvolvi trabalho paralelo, ajudei colegas, e posso-me dar ao luxo de ter tido um patrão que sempre me apoiou e compreendia que eu precisava de estar ocupada e de fazer várias coisas ao mesmo tempo.
Mas chegou uma altura em que não havia mais degraus para subir. O que é que eu ia fazer? Passar o resto da vida estagnada? Claro que não! Isso seria como que morrer. O meu próprio patrão (amigo) disse-me que compreendia perfeitamente que aquele emprego e aquela cidade se estavam a tornar pequenos demais para mim.
Resolvi ir embora dali, daquele lugar onde me estava a sentir atrofiada.
E hoje, mesmo ao fim de me conhecer há vinte e seis anos, continuo a ter conflitos internos, continuo a achar que o Mundo não foi feito à minha medida e que jamais me conseguirei adaptar a ele.
Mas pronto, voltando ao início, fiquei completamente atónita com a falta de conhecimento sobre como os sobredotados sem dinheiro são tratados em Portugal.
Esses meninos que vão falar à televisão, são coitadinhos porque são sobredotados, mas têm uma família de suporte, dinheiro para investir no futuro e as portas abertas para o Mundo.
E os outros?
Todos aqueles meninos e meninas que, sendo sobredotados, passam a vida infelizes porque ninguém investe neles, porque ninguém lhes explica que ser sobredotado não é ser um monstro, porque não têm sequer uma oportunidade de dar largas ao conhecimento.
Desses ninguém fala! Com esses ninguém se importa!
No fim de contas a única coisa que mais desejava era ter podido nascer noutro país, ou melhor, ter nascido uma pessoa normal…

2 comentários:

Nuno Medon disse...

olá! tens razão naquilo que dizes. não conheço, nem nunca conheci muitos sobredotados mas gostei do que li. E sim, ás vezes os pais não tém dinheiro para apostar ainda mais na educação dos filhos. * e bom fim de semana!

Duas Metades disse...

Nuno
Obrigado pelo comment, embora a minha ideia principal fosse, não só alertar para esse factor monetário, mas principlamente para o quanto um sobredotado pode sofrer e sentir-se à margem de uma sociedade que não está preparada para ele. Fica bem...